Paterson é simples, como eu e você

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Sempre que sai um filme novo do Jim Jarmusch eu sinto como se tivesse a honra de ser convidada a passear em um lugar muito especial. Cada vez é um lugar diferente, mas todos têm algo em comum: a forma como coisas que poderiam ser banais vão se juntando para se transformar em algo único e importante. A cada filme, Jim me ensina que a vida não precisa ser incomum para ser especial. Paterson, seu filme mais recente, é um recorte na vida de um jovem motorista de ônibus. Seu nome é Paterson e ele mora na cidade de Paterson, New Jersey, com Laura, sua amada, e Marvin, seu buldogue inglês.

paterson jim jarmusch

Sem pressa, somos apresentados a Paterson e sua rotina de acordar cedo, tomar café da manhã, ir trabalhar, parar um tempinho para almoçar, trabalhar mais, voltar para casa e ir levar o cachorro para passear, com direito a uma parada num bar para uma cerveja. Nos intervalos disso tudo, Paterson escreve poemas. Durante isso tudo, Paterson vive poesia. Com seu temperamento calmo e amável, ele nota as coisas simples da vida e aos poucos nós também, como espectadores, começamos a notá-las. Gêmeos idênticos vestidos com roupas iguais; ouvir a mesma frase de várias pessoas no mesmo dia; a casa decorada em branco e preto; conhecer alguém cujo escritor preferido é o mesmo que o seu; as gentilezas e o carinho da pessoa amada. Assim, a trivialidade da vida de Paterson vai se transformando em algo mágico.

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Para mim, a melhor qualidade de uma obra de arte é o quão humana ela consegue ser. Quanto mais humana, mais ela se comunica com quem a vivencia. Eu me identifiquei com Paterson, o filme, e Paterson, o personagem. Como eu, ele é um escritor que hesita em mostrar sua obra para o mundo. Como todos nós, ele é apenas humano. Vive sua vida um dia após o outro e vê o sol nascer pela manhã e se por no fim da tarde. Nesse meio tempo, vai se encantando com o que aparece em sua frente por aí. Lembrei-me que a vida acontece na simplicidade, na rotina, nas coincidências e nos detalhes que tantas vezes nos escapam. Aí nessa simplicidade também acontecem a poesia e o amor.

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Paterson é um poema de amor sincero e simples, que exalta o quanto a vida pode ser maravilhosa e surpreendente em sua banalidade. Jim Jarmusch conta uma história como ninguém e eu só tenho a agradecer por ter tido a oportunidade de viver mais esta.

Paterson

Estados Unidos, França, Alemanha, 2016

Direção: Jim Jarmusch

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Sobre Leonard Cohen e sobre a luz

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Essa semana eu estava muito triste. Meio triste por mim, sem motivo, a melancolia  que sempre volta. Depois fiquei mais triste, pelo mundo, pelos Estados Unidos, pelo Brasil, por nós todos. Nos últimos meses tenho sentido que eu, muita gente que conheço e muitos amigos que eu amo, todos temos andado meio assustados, meio perdidos, um pouco sem esperança.

Aí ontem meu ídolo maior morreu. Leonard Cohen, desde que o descobri, foi minha grande inspiração, minha fonte de sabedoria, minha espiritualidade. Eu não acredito em religião ou nada parecido, mas minhas “orações” sempre foram ouvir The Future do começo ao fim e pensar em arte, em amor e na beleza e complexidade da vida. Isso é o mais próximo de oração que já consegui fazer.

Leonard morreu e já sabia que ia morrer em breve. Metafísico ou não, ele estava sublime, ciente, pronto. Ao menos foi o que pareceu pelos vídeos em que ele falou sobre o seu último álbum e em suas últimas entrevistas. Ele falava da morte como se ela o esperasse, depois de uma vida em que ele já tinha terminado sua jornada.

Passei a semana triste, mas não conseguia chorar. Eu pensava o tempo todo que queria me livrar daquela angústia, me sentir aliviada ou encontrar algo que me desse esperança. Minha melancolia sempre chega já querendo deixar de ser. E ontem eu finalmente chorei quando soube que ele morreu. Foi um choro diferente porque eu não estava mais triste. As minhas “orações” tinham sido atendidas. Quando tudo parece ruim e feio, às vezes a gente se esquece ou se afasta das coisas boas que nos motivam a viver, que nos propulsionam pra frente. Mas ontem, quando Leonard morreu, eu me lembrei e tudo ficou claro de novo:

“There is a crack in everything, that’s how the light gets in.”

Eu tenho essa frase da música Anthem tatuada no braço e na alma, mas às vezes me esqueço de vivê-la. Não acredito em deus(es), em vida após a morte, em pecado, em inferno. Mas acredito em amor, em arte e que nosso tempo nesse mundo é curto demais pra gente perder tempo com bobagem. O que fazemos de bom e criamos com sentimento e boa vontade, se tivermos sorte, fica maior que nós mesmos e sai por aí pra fazer parte de outras vidas, de outros sentimentos.

Às vezes o mundo fica feio e escuro demais e parece muito difícil ter esperança. Mas, sim, por mais que haja trevas, por algum lugar mínimo que seja, há de entrar a luz. E eu quero tentar encontrar essa luz. Eu preciso desta luz. Quero que ela ilumine a mim e a todos os que precisam dela. Quero tentar refletir essa luz. Ela é tudo o que temos e é mais importante ainda em tempos de escuridão.

Hoje tenho mais vontade de escrever (reescrever) meu romance e começar vários outros, de inventar novas histórias, de encontrar a poesia da vida, de aprender tantas coisas que eu nem faço ideia que existam.

Hoje estou mais disposta a criar, a fazer o bem e a espalhar amor e arte pelo mundo. Hoje minhas lágrimas são de esperança.

Obrigada por ter iluminado o mundo, Leonard.

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Nanking e a esperança

Imagem: IMDb

Eu costumo classificar os documentários que assisto em três categorias. Há os que apenas acrescentam informações, úteis ou não, e ampliam meu conhecimento sobre algo. Tem também os que conseguem trazer um pouco de esperança em relação à humanidade e ao futuro do mundo. Mas há aqueles que deixam um vazio e uma tristeza enorme ao mostrar do que o ser humano é capaz e o quanto a realidade pode ser terrível. Nanking, de 2007, foi um exemplo destes dois últimos tipos.

Eu já tinha ouvido falar sobre o Massacre de Nanking ou o Estupro de Nanking, que aconteceu no final de 1937 e começo de 1938 durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa. Já tinha assistido ao filme Flores do Oriente (The Flowers of War) de 2011, que, apesar da abordagem ficcional e hollywoodiana, dá uma ideia do que aconteceu na cidade, então capital da China, quando ela foi invadida por tropas do império japonês. Mas basta buscar por “Nanking” no Google para ver que há muito mais para se falar sobre o que aconteceu ali. E mais importante: é preciso pensar sobre isso.

Tem gente que não gosta de tomar conhecimento sobre histórias horríveis, fala que nunca iria a lugares que hoje são memoriais de grandes tragédias da humanidade ou apenas foge de fatos assim dizendo “ai, que horror”. Sim, é um horror. E faz mal. E se você tiver o mínimo de sensibilidade, histórias como a de Nanking vão doer, talvez muito. Mas eu prefiro saber, em detalhes. Mesmo que isso me tire o sono e me deixe revoltada por dias.

Nanking conta a história do massacre de várias formas, todas impactantes. Mostra entrevistas com sobreviventes que foram vítimas e também alguns que eram do exército japonês. Estes depoimentos são mesclados com filmagens e fotos, feitos por pessoas que testemunharam o episódio. O documentário é guiado pelos atores que interpretam personagens reais, principalmente estrangeiros, que viviam na China na época. Os relatos foram obtidos em anotações, diários e correspondências. Eles foram responsáveis por manter campos de refugiados e juntos salvaram mais de 200 mil pessoas enquanto a cidade estava tomada. Mas apesar de vários pedidos de ajuda internacional, pouco ou nada foi feito para parar o que acontecia do lado de fora dos campos de refugiados.

Quem assiste ao documentário não é poupado de ver imagens fortes. Fotos e filmagens em preto e branco de pilhas de cadáveres amontoados e de pessoas brutalmente feridas, violentadas ou assassinadas. Também é possível ver como Nanking em poucas semanas deixou de ser uma cidade próspera e moderna e transformou-se em escombros. Os depoimentos dos sobreviventes, todos com idade avançada, descrevem fatos e o sentimento daqueles que estavam vulneráveis ao ataque das tropas japonesas. A maioria das vítimas eram civis. As mulheres eram alvos fáceis e mesmo muito jovens eram estupradas e mortas por grupos enormes de soldados. Alguns destes soldados justificaram a violência dizendo que eles estavam há dias na cidade e precisavam de algum tipo de distração.

Até hoje há controvérsias entre a China e o Japão em relação ao Massacre de Nanking. Alguns dos responsáveis foram julgados e executados como criminosos de guerra logo ao final da Segunda Guerra Mundial, mas ainda há divergências, por exemplo em relação ao número real de mortos (a estimativa varia de 40.000 a 300.000). Além disso, ainda existe uma minoria nacionalista no Japão que nega que o massacre tenha acontecido.

Após assistir ao documentário, pensei que tudo o que eu tinha visto poderia ser percebido de duas formas: ou me entristecer profundamente por ver que o ser humano é capaz de cometer atos tão terríveis e eliminar cerca de 300 mil pessoas; ou ter alguma esperança na humanidade por ver que no meio de toda aquela tragédia havia pessoas que optaram por ficar lá para salvar mais de 200 mil vidas. Estou me esforçando muito para acreditar na segunda.

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Estados Unidos, 2007

Direção: Bill Guttentag e Dan Sturman

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A pluralidade do amor (e das pessoas)

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Para mim há duas verdades sobre o amor: a primeira é que ele existe; a segunda é que ele se manifesta de formas diferentes. O amor não é uma equação cujo resultado é previsível e esperado. Acho que cada pessoa e cada relação têm um amor diferente, que vai mudando ao longo do tempo e reflete diversos fatores como a história de vida e a personalidade de cada um. A beleza do amor está no fato de que ele não é um, mas vários. E geralmente o que me atrai numa boa história de amor, real ou na ficção, é o fato de ela mostrar a singularidade desse sentimento.

Os nomes do amor, no original francês Le Nom des gens (o nome das pessoas), é um filme sobre amor e sobre pessoas. Tem muitas cenas divertidas e engraçadas, mas está longe de ser uma comédia romântica como as que Hollywood produz em larga escala. Arthur Martin é um cientista de meia idade criado por uma família conservadora e cheia de tabus. Bahia Benmahmoud é uma garota liberal de vinte e poucos anos, filha de um imigrante argelino e de uma francesa militante de várias causas. Em tempos de epidemia de gripe aviária, Arthur estuda o vírus responsável pela morte de patos e galinhas. Enquanto isso, Bahia, que se considera uma espécie de prostituta política, dedica sua vida ao hábito de ir para a cama com homens direitistas e “fascistas” (como ela os define) com o objetivo de convertê-los a uma ideologia esquerdista.

Entretanto, em um dos maravilhosos acasos da vida (e da ficção), Arthur e Bahia se encontram e se apaixonam. E um dos encantos do filme é aproveitar todas as diferenças entre os protagonistas e contar a história sob perspectivas diferentes e inesperadas.  Outro grande mérito é a forma com que são abordados temas muito delicados como o holocausto, o preconceito contra imigrantes e diferenças políticas e ideológicas. Em nenhum momento a seriedade destes temas é ignorada, mas sim contribui para enriquecer a vida dos personagens e mostrar que tudo isso é importante para que eles sejam quem são.

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Bahia, à primeira vista, pode assustar justamente porque é muito fora dos padrões. Sua ideologia, sua falta de pudores com seu corpo, sua banalização do uso do termo “fascista” e seu hábito de usar o sexo como uma arma política fazem com que ela seja surpreendente, mas adorável. Ela é uma mulher incrível e é isso que atrai Arthur, que mesmo afirmando que tem uma ideologia política parecida com a dela, vive uma vida mediana, conservadora e delimitada pelo que seus pais esperam dele. Quando suas vidas se cruzam, eles começam a fazer parte de universos diferentes do que estão acostumados e têm que lidar com as consequências disso.

O amor que vai surgindo entre Bahia e Arthur encanta porque reflete não só o sentimento de paixão e atração entre eles, mas também mostra que eles são parte de um todo que sempre pertencerá a eles. Seus pais e sua história triste, heranças culturais, traumas de infância, tabus, relacionamentos antigos. Tudo sempre estará lá, dentro de cada um. Mas, mesmo com dificuldade, é possível construir algo novo e transformar a vida de quem se ama com companheirismo, respeito, paciência e tolerância. Os nomes do amor mostra que amar e se relacionar não é fácil, mas é possível.

“Eu quero fazer por você o que você faz por mim.”

Segundo a página francesa do filme na Wikipedia, o filme é semibiográfico. Foi dirigido por Michel Leclerc e roteirizado por ele e por Baya Kasmi, com base em um curta-metragem de história semelhante dirigido por ela alguns anos antes. A vida de Baya foi uma das referências para criar a protagonista Bahia. O pai de Baya, a roteirista, inclusive contribuiu para o filme com as telas pintadas pelo pai de Bahia, a personagem.

Garoto conhece garota; eles se apaixonam; acontecem alguns contratempos que podem impedi-los de ficar juntos. Isso pode até ser uma fórmula que se repete na vida e na ficção. Mas histórias como a de Os nomes do amor nos relembram que isso nunca deixará de ser fascinante.

Os nomes do amor (Le Nom des gems) 

França, 2011

Direção: Michel Leclerc

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Thelma & Louise, uma epifania

Imagem: Rotten Tomatoes

Na primeira vez que assisti a Thelma & Louise eu devia ter uns 12 ou 13 anos. Um dos sintomas da minha puberdade era ter um quarto e uma agenda decorados com fotos do jovem Brad Pitt. Como leitora assídua de revistas adolescentes, eu sabia que nesse filme tinha uma cena de nudez parcial dele. Pois dei meu jeito e aluguei a fita do filme pra assistir, meio escondida em casa. E gostei bastante da cena de nudez parcial (risos), mas também do filme em si.

Eu costumo ter uma ótima memória para filmes. Principalmente se eles me marcam de alguma forma. Eu me lembrava bem do enredo, da ordem dos fatos e, claro, do final icônico de Thelma &  Louise. Aí ontem resolvi finalmente revê-lo. E, sim, o enredo e a ordem dos fatos estavam lá, quase tudo como eu me lembrava. Mas o efeito que a história causou em mim foi completamente diferente. Porque quem mudou fui eu.

Desde os primeiros minutos as personagens me interessaram. Thelma e Louise são mulheres como tantas que passam por nós todos os dias pelas ruas. Um marido ou namorado escroto, um passado traumático, um emprego de merda, alguns desejos reprimidos, uma vontade louca de se divertir. De alguma forma, em maior ou menor escala, todas somos um pouco Thelma ou Louise. E acho que foi isso que fez com que eu sentisse um aperto no peito ao ver a história se desenvolvendo. Quem nunca quis explodir um caminhão de um cara que fez gestos obscenos pra você? Ou fugir de tudo, sem olhar para trás? Ou talvez apenas escolher um caminho que nos aproxime de ser quem realmente queremos ser?

Imagem: Rotten Tomatoes

Foi impressionante ver este filme hoje, que sou uma mulher adulta, que tem lutado cada vez mais para se entender como pessoa e também como mulher. Uma mulher que tem tentado para olhar para o mundo e para as pessoas de outra forma. Que tem conhecido outras mulheres incríveis e tem se sentido muito apoiada por elas. Uma mulher que quer aprender a criar personagens e histórias que sejam não apenas interessantes, mas relevantes e humanas de verdade. O final do filme, desta vez, não foi surpreendente, mas sim um pouco doloroso.

Hoje eu sou muito mais Thelma e Louise que era aos 13 anos. Por isso, agora eu entendi. E foi satisfatório ver duas mulheres no controle de suas vidas, mesmo que por pouco tempo e tomando atitudes consideradas imorais ou erradas. Para mim, tudo ali representa um grito de quem não aguenta mais. De quem quer liberdade, mas não sabe o que é liberdade. Thelma & Louise é muitas coisas: um road movie, um filme de vingança, uma história de fracasso e vitória, talvez um manifesto de revolta feminina. Mas pra mim, representa uma epifania que toda mulher deveria ter. De preferência sem cometer muitos crimes.

“Let’s not get caught. Let’s keep going.”

Thelma & Louise (1991)

Estados Unidos

Direção: Ridley Scott

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Escrever um livro é apaixonar-se

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Eu sempre quis escrever um livro. Desde criança eu escrevia e inventava coisas e, em muitos momentos, eu me escondia dentro de algum lugar na minha imaginação. Acontece que eu sempre achei, até bem pouco tempo atrás, que pra criar uma história de verdade, do zero, eu precisava estar pronta. Mas aí, cada vez mais, a vida me mostrou que não existe exatamente isso de “estar pronta”.

Neste ano eu procurava por uma história de amor para ler. Demorei a encontrar alguma que fosse exatamente o que eu queria. Até que eu pensei: vou escrever uma história que eu gostaria de ler. E essa afirmação é tão simples quanto maravilhosa. Tenho certeza que é assim que nascem as grandes criações. Alguém que quer fazer algo que ama e oferecer isso ao mundo. Assim, eu vi que “estar pronta” de verdade é dar o primeiro passo. Mesmo que com medo, insegurança ou inexperiência, é importante começar, e começar logo. Assim, bem devagar, comecei a criar coragem e primeiro imaginar e depois começar a trabalhar para escrever a história de amor que eu estava procurando.

Sim, trabalhar. Um dos grandes empecilhos que eu inventava era que era preciso ter 100% de tempo livre para escrever. Não é assim. Seria bom, mas não é. Acho até que ter outras atividades faz com que a escrita criativa seja nutrida por várias influências na vida. Também percebi que é importante entender o meu jeito pessoal de criar. Por isso, estou descobrindo meu método e vi que sem disciplina e organização eu não conseguiria fazer algo que me agradasse. Frequência, estudo e dedicação têm sido meus maiores aliados.

E isso é tão importante quanto a outra parte, que é a mais legal de todas: apaixonar-se. Há uma frase de Mavis Gallant que tem se mostrado muito verdadeira para mim: “Escrever é como um caso de amor. O começo é a melhor parte”. A sensação que tenho agora é exatamente essa, de paixão recente, encantamento. E sei que vou viver todas as emoções ao longo do livro e imagino que ao final terei que sofrer a dor da perda. Mesmo sabendo de tudo isso, sei que esses sentimentos preenchem um espaço em mim que estava guardado só para eles. Um espaço que esperou a vida inteira para ser preenchido.

Mas escrever para quem?

Pode parecer egoísta, e é um pouco: estou escrevendo, em primeiro lugar, para mim. Porque eu merecia sentir todo esse amor e viver essa experiência de criar algo feito de pequenas partes de mim e de coisas que eu amo. Recentemente tenho lido quase todos os dias o poema So you want to be a writer, de Charles Bukowski. E ele nunca fez tanto sentido para mim quanto agora:

” don’t be like so many writers,
don’t be like so many thousands of
people who call themselves writers,
don’t be dull and boring and
pretentious, don’t be consumed with self-love.
the libraries of the world have
yawned themselves to
sleep
over your kind.
don’t add to that.
don’t do it.”

Uma das coisas que atava minhas mãos era pensar em fatores externos que eu nunca poderia controlar, como, por exemplo, qual seria o destino daquilo que eu escrevesse. Eu tenho certeza que pensava do jeito errado. Assim como qualquer outra forma de arte, se a escrita sai do lugar certo de dentro de você, se é feita com sinceridade absoluta, se nela há todo o sentimento que você pode oferecer e é feita com seu trabalho e dedicação, o resto são detalhes.

Em um dos audiobooks que ouvi de um de meus comediantes e pensadores favoritos, George Carlin, ele falou sobre o início de sua carreira. Ele disse que o que o motivava de verdade não eram grandes plateias ou a fama. Se houvesse apenas uma pessoa para quem ele falasse suas ideias e aquilo fizesse a diferença, ele já ganharia algo muito valioso e teria motivação para continuar escrevendo e se apresentando. E é isso: se ao menos uma pessoa puder sentir ou absorver algo que venha do que eu estou criando com tanto amor, eu já serei muito feliz. Já estou sendo, na verdade.

E o livro?

Por ora falarei pouco dele. Deixarei aqui o link de Obtuso no Wattpad. Ah, e também criei uma playlist no Spotify com músicas que me inspiram a escrever essa história de amor =)

Ficarei muito feliz se mais leitores me acompanharem nesse caminho. E agradeço muito a quem já está me acompanhando com apoio, carinho e palavras de incentivo. Vocês sabem quem são e eu amo vocês. A história está só começando e eu estou apaixonada ♥

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Encontro marcado, talvez comigo mesma

Imagem: Goodreads

Às vezes fico pensando se eu sou atraída por livros narrados ou protagonizados por escritores ou se leio vários livros assim porque realmente existem muitas destas obras. Escritores gostam de falar de seus dramas pois, afinal, é muito mais fácil falar com propriedade sobre nossos próprios dilemas e sentimentos. Encontro marcado, de Fernando Sabino, é um desses livros de escritor, sobre escritor e, talvez, para escritores.

O enredo do livro em si não é surpreendente ou inusitado. Na verdade é até um pouco banal, narrando o dia a dia de Eduardo Marciano e das pessoas que passam por sua vida. O que realmente importa e se destaca são as reflexões do protagonista e dos outros personagens, muitas vezes inconsistentes e sem sentido, como costumam ser as minhas e de quem convive comigo, ou talvez as de todo mundo.

Confesso que foi um alívio terminar essa leitura. Eu sofri. Principalmente por me identificar muito com esse sentimento que creio que aflige todos os escritores, desde os grandiosos até os que ainda não “saíram do armário”, como eu. A dor crônica e inexplicável de não produzir, não criar, mesmo sem saber exatamente o que se quer criar ou produzir. Ou até mesmo a dúvida de saber se a vontade de escrever existe mesmo ou se é uma mentira que contamos a nós mesmos.

“De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro.”

Fernando Sabino escreveu um dos livros mais marcantes da minha adolescência, O grande mentecapto. Este livro, que nunca reli para não quebrar o encanto da memória que guardo dele, me fez rir e chorar na mesma intensidade, como poucos outros. Comecei a ler Encontro marcado procurando pelo Fernando Sabino que escreveu aquele livro que eu tanto amava. E ele estava lá, em sua essência, expondo a dor da transformação no que realmente queria ser, um escritor. Se é autobiografia, não sei. Mas poderia ser a minha autobiografia em alguns momentos.

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