O abismo no fim do campo de centeio

Se eu pudesse dizer uma frase ao protagonista Holden Caulfield, de O Apanhador no Campo de Centeio, essa frase seria: “Um dia, tudo vai melhorar”. Caulfield tem aquele tipo de inquietação que, claro, aflige a todos nessa época tão incerta da vida, mas incomoda muito mais quem tem uma tendência maior a questionar e a não caber nos padrões impostos pela sociedade.

Para mim, Caulfield é um ser humano adorável, e eu sei o quanto isso pode soar estranho, especialmente para quem não costuma questionar o status quo. Ele é mentiroso, apático, tem tendência à depressão e está sempre tentando fugir. Mas como não ser assim diante de uma realidade tão errada e incômoda? As pessoas que ele chama de “phonies”, ou seja, os hipócritas, superficiais e pretensiosos, estão por toda parte e são admirados e tidos como exemplo a ser seguido por uma sociedade doente. E, para quem consegue sentir isso, aos 16 anos a dor é muito maior.

Eu entendo Caulfield, e muito. Senti essa dor por muito tempo e, de certa forma, ainda sinto. Nunca quero deixar de senti-la, inclusive. É ela que me lembra todo dia de que eu não posso seguir pelo caminho mais fácil e deixar de questionar. Mas a questão é que fico feliz por ter lido este livro só agora, depois que todo o desconforto da adolescência passou. As reflexões e dilemas do protagonista me tocaram muito, mas de uma forma diferente da que eu sentiria há algum tempo.

Quando eu era adolescente, e até um pouco mais tarde, sempre tive a sensação de que a minha vida era tão incômoda quanto uma roupa de mau caimento. Apertada aqui, solta ali, dificultando meus movimentos. Os adultos, em sua maioria, eram seres absurdos nos quais eu não queria me transformar. Como não querer fugir disso para tentar diminuir a dor? Por isso, chamar Caulfield de apático ou egoísta, para mim, não faz o menor sentido. Ele só não queria se transformar naquilo que ele mais abominava.

rye

O nome do livro, The Catcher in the Rye é uma menção a isso. Em uma de suas reflexões, Caulfield menciona um poema escocês chamado Coming Through a Rye e fala que a única “profissão” que lhe atrairia seria a de proteger crianças que brincavam em um campo de centeio e ficar à beira de um abismo para evitar que alguma delas caísse nele por acidente.  E esse abismo representa a vida adulta como todos imaginam que seja. Um abismo escuro e cheio de monstros horríveis. O protagonista admira as crianças e abomina os adultos e ele tem toda razão. O destino quase certo das crianças é cair no abismo e se transformar em adultos lamentáveis.

O Apanhador no Campo de Centeio não é um livro sobre um adolescentes para adolescentes. É um livro sobre a inquietação que nunca se deve deixar de ter. É sobre a hipocrisia, sobre mentir para quem não tem vergonha de mentir para você. Eu queria dizer a Caulfield que é possível se afastar dos “phonies”, seja fisicamente, seja apenas ignorando o que eles falam. Porque o que faz a vida valer a pena é conviver com as poucas pessoas que não são rasas ou fúteis e, principalmente, tentar ser o oposto disso.

 

“Gin a body meet a body
     Comin thro’ the rye,
Gin a body kiss a body —
     Need a body cry.”

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