Nanking e a esperança

Imagem: IMDb

Eu costumo classificar os documentários que assisto em três categorias. Há os que apenas acrescentam informações, úteis ou não, e ampliam meu conhecimento sobre algo. Tem também os que conseguem trazer um pouco de esperança em relação à humanidade e ao futuro do mundo. Mas há aqueles que deixam um vazio e uma tristeza enorme ao mostrar do que o ser humano é capaz e o quanto a realidade pode ser terrível. Nanking, de 2007, foi um exemplo destes dois últimos tipos.

Eu já tinha ouvido falar sobre o Massacre de Nanking ou o Estupro de Nanking, que aconteceu no final de 1937 e começo de 1938 durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa. Já tinha assistido ao filme Flores do Oriente (The Flowers of War) de 2011, que, apesar da abordagem ficcional e hollywoodiana, dá uma ideia do que aconteceu na cidade, então capital da China, quando ela foi invadida por tropas do império japonês. Mas basta buscar por “Nanking” no Google para ver que há muito mais para se falar sobre o que aconteceu ali. E mais importante: é preciso pensar sobre isso.

Tem gente que não gosta de tomar conhecimento sobre histórias horríveis, fala que nunca iria a lugares que hoje são memoriais de grandes tragédias da humanidade ou apenas foge de fatos assim dizendo “ai, que horror”. Sim, é um horror. E faz mal. E se você tiver o mínimo de sensibilidade, histórias como a de Nanking vão doer, talvez muito. Mas eu prefiro saber, em detalhes. Mesmo que isso me tire o sono e me deixe revoltada por dias.

Nanking conta a história do massacre de várias formas, todas impactantes. Mostra entrevistas com sobreviventes que foram vítimas e também alguns que eram do exército japonês. Estes depoimentos são mesclados com filmagens e fotos, feitos por pessoas que testemunharam o episódio. O documentário é guiado pelos atores que interpretam personagens reais, principalmente estrangeiros, que viviam na China na época. Os relatos foram obtidos em anotações, diários e correspondências. Eles foram responsáveis por manter campos de refugiados e juntos salvaram mais de 200 mil pessoas enquanto a cidade estava tomada. Mas apesar de vários pedidos de ajuda internacional, pouco ou nada foi feito para parar o que acontecia do lado de fora dos campos de refugiados.

Quem assiste ao documentário não é poupado de ver imagens fortes. Fotos e filmagens em preto e branco de pilhas de cadáveres amontoados e de pessoas brutalmente feridas, violentadas ou assassinadas. Também é possível ver como Nanking em poucas semanas deixou de ser uma cidade próspera e moderna e transformou-se em escombros. Os depoimentos dos sobreviventes, todos com idade avançada, descrevem fatos e o sentimento daqueles que estavam vulneráveis ao ataque das tropas japonesas. A maioria das vítimas eram civis. As mulheres eram alvos fáceis e mesmo muito jovens eram estupradas e mortas por grupos enormes de soldados. Alguns destes soldados justificaram a violência dizendo que eles estavam há dias na cidade e precisavam de algum tipo de distração.

Até hoje há controvérsias entre a China e o Japão em relação ao Massacre de Nanking. Alguns dos responsáveis foram julgados e executados como criminosos de guerra logo ao final da Segunda Guerra Mundial, mas ainda há divergências, por exemplo em relação ao número real de mortos (a estimativa varia de 40.000 a 300.000). Além disso, ainda existe uma minoria nacionalista no Japão que nega que o massacre tenha acontecido.

Após assistir ao documentário, pensei que tudo o que eu tinha visto poderia ser percebido de duas formas: ou me entristecer profundamente por ver que o ser humano é capaz de cometer atos tão terríveis e eliminar cerca de 300 mil pessoas; ou ter alguma esperança na humanidade por ver que no meio de toda aquela tragédia havia pessoas que optaram por ficar lá para salvar mais de 200 mil vidas. Estou me esforçando muito para acreditar na segunda.

Nanking

Estados Unidos, 2007

Direção: Bill Guttentag e Dan Sturman

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